Sobre um manifesto a favor do deslumbre
Num tempo em que o desinteresse virou postura, voltar a se encantar exige reaprender a sentir
Não é um texto sobre o show do My Chemical Romance, apesar de ser.
E essa leitura ficará melhor se for feita na versão web, tá?
Na última sexta-feira, eu fui ao show do My Chemical Romance. Assim como grande parte dos nascidos nos anos 90, eu fui emo na adolescência e fazia das minhas bandas favoritas grande parte da minha personalidade. A banda não vinha ao Brasil há 18 anos, mas, para mim, foi o primeiro show.
Como já contei em outro texto, fui uma adolescente sem recursos financeiros; portanto, não havia a menor possibilidade de assistir aos shows das minhas bandas favoritas. Então, quando surgiu a chance de ver a banda que embalou meus primeiros textos — fanfics1, geralmente — escritos no meu computador de processador 1.66 com internet discada, não hesitei em desembolsar um valor um tanto obsceno para gritar as canções que eu tanto amava, acompanhada pelos criadores e performers delas.
Fiquei ansiosa como uma adolescente ficaria e, quando a sexta-feira enfim chegou, senti uma excitação que há muito não sentia. Era como se tivesse uma festa inteira dentro do meu peito. Eu sabia que, quando a música silenciasse, eu me debulharia em lágrimas. Era uma espera longa demais. Meu barulho interno pararia assim que as luzes se apagassem antes de serem acesas. E foi o que aconteceu.
Quando o show começou, entrei em um profundo estado de encantamento e aproveitei cada segundo. Gritei a plenos pulmões cada uma das músicas e me deslumbrei com todos os atos do espetáculo. Fiquei encantada com a direção artística, com a teatralidade, com as referências a 1984 e com a paixão das pessoas ao redor. Era uma catarse coletiva tão intensa que parecia possível ver todos aqueles adolescentes interiores gritando. Tínhamos mais de 30, mas as vozes estavam na faixa de 16.
Ter sentido tudo isso desse jeito, com tanta intensidade, a ponto de continuar falando sobre o assunto durante dias, me fez pensar sobre o quanto a gente foi aprendendo a silenciar o nosso deslumbre.
*
Quando fui para a Europa, em 2021, eu tinha a sensação de que todas as pessoas que eu conhecia já haviam ido. Que eu estava indo com uma espécie de atraso. Meu então-namorado, mesmo, já tinha perdido as contas de quantas vezes tinha estado ali, e eu sentia um frio na barriga enorme só de pensar em ver Gaudí pela primeira vez. Para mim, era como se fosse a mais importante oportunidade e experiência da minha vida.
Lembro como se fosse hoje: estávamos andando em direção à Sagrada Família e, de repente, ela despontou no horizonte. Não teve como. Comecei a chorar ali mesmo, olhando para cima, como se visse algo que eu custava a acreditar.
No fundo, eu custava mesmo. Aquilo tudo era distante demais da minha realidade até pouco tempo atrás.
Nessa viagem, porém, junto ao completo deslumbre, lembro que me senti um pouco envergonhada por querer registrar tudo. Porque eu queria guardar tudo, como pequenas provas da vida que eu, meu Deus, eu, estava vivendo. Eu queria registrar cada cantinho que me emocionava, cada textura de azulejo, cada folha caída. Era como se guardar aquelas coisas pudesse materializar o que eu vivia, deixando esse sonho à prova de despertares.
Mas, ao mesmo tempo, eu me sentia desajustada por sentir as coisas daquele jeito. Me sentia anacrônica. Me sentia como se tivessem me roubado o deslumbre.
Mas quem roubou?
E principalmente: por que eu deixei?
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Esse discurso da Portia, na segunda temporada de White Lotus, talvez explique um pouco desse sentimento: o de que antes de ver qualquer coisa, eu já sabia como aquilo deveria parecer em uma foto. Antes de sentir qualquer emoção, eu já sabia como ela seria percebida porque as redes sociais não só registram a vida: elas a antecipam e criam um catálogo infinito de experiências já vividas por alguém, em algum lugar, com uma luz melhor, um corpo melhor, um enquadramento melhor. Quando a nossa vez chega, ela parece atrasada. Repetida. Desinteressante. Boring.
Talvez as coisas pareçam assim porque, de certo modo, as redes sociais não roubaram o nosso acesso às experiências, mas sim o direito à primeira vez.
*
Foi só quando virei mãe que me peguei apta ao deslumbre novamente. Quando vi minha filha sorrir com a primeira brisa em seu rosto e me senti genuinamente emocionada ao ver seus olhinhos fechados ao sentir aquela sensação completamente nova em sua pele, me deixei encantar de novo. Bebês não têm repertório, não têm referência, não têm feed e, para ela, tudo era a primeira vez. E a primeira vez, quando não é comparada a nada, é sempre grandiosa.
Foi observando a Maria se deslumbrar com o mundo que eu percebi o quanto eu tinha desaprendido a fazê-lo também. Não porque as coisas tivessem perdido a graça, mas porque eu tinha passado anos olhando para elas pelo olhar dos outros. Pouco a pouco, ao longo desses três anos, eu fui aprendendo a me emocionar, também. A fazer um anjo de neve aos 32 anos. A colocar a língua pra fora no meio de uma nevasca. A sentir os olhos marejados ao ver minha banda favorita e a deixar o peito se abrir ao gritar um refrão que eu não cantava há anos.
Naquela sexta-feira, tive uma prova de que o encantamento não desapareceu do mundo. A gente só ficou com medo de senti-lo em voz alta. E nada melhor que um show do My Chemical Romance para reaprender a se emocionar assim.
→ Meio que falando nisso… Escrevi sobre poder viver o mundo pela primeira vez, sob o olhar de um filho, nesse post aqui.
🖤 Dedico essa edição às minhas amigas Hiandra e Bianca, que fizeram parte dessa fase comigo, ao meu amigo Marin, que me vendeu o ingresso e possibilitou esse momento, e ao Edgar e à Yas, que viveram esse momento comigo. 🖤









Ownti, meu Deus. Queria poder te abraçar
acho que isso se intensifica quando se é mulher, porque somos ensinadas socialmente que temos um prazo para sentir certos anseios e para nos permitirmos ser deslumbradas por algo, já que, se demonstramos animação por algo - um artista, por exemplo -, somos vistas como infantis ou desocupadas demais só por ser fãs. logo, associamos, por vezes indiretamente, a sensação de anseio/deslumbre à imaturidade, como se não pudéssemos mais ser quem somos, ou não seríamos vistas integralmente como queremos. dito isso, amo me permitir ser fã das coisas e ver essa beleza no mundo como quem o habita pela primeira vez - coisa que meu irmãozinho mais novo me ensinou também :)